sábado, 30 de abril de 2011

Adeus agonia!

Era um aperto danado de estranho.
Como se estivesse sendo fincada uma estaca no peito de um vampiro tentando destruí-lo.
E aquela agonia toda de sentir o peito se derramar em lágrimas vermelhas.
A face se derreter em um líquido salgado.
Olhava com um olhar perdido para um lugar achado no horizonte da parede à sua frente.
Procurava nos seus pensamentos algo em que pudesse se perder em pensamentos soltos, mas todos estavam condenados àquelas velhas memórias de ontem.
E ante-ontem.
Semana passada.
Do ano que se passou dez anos atrás.
A compressão do peito era cada vez maior. Foi cada vez maior.
E ao olhar para os punhos, eles estavam cortados.
Ao olhar para os braços, encontrava-os amarrados.
Os pés não tinham mais força para erguer o guerreiro.
Era um sentimento tão forte e destruidor que não havia mais volta.
Foi ai, que ao forçar o último suspiro, o guerreiro preso na sua própria cela, conseguiu enxergar.
Aqueles olhos. Aquele olhar.
Aquela pele corada.
Se debruçara sobre ele e falou-lhe nos ouvidos.
Era a doce voz de tempos idos. Era a assassina de agonias que voltara para salvar-lhe dos seus temores.
Ela dizia:
- "Eu ainda estou aqui! Lembra-te e levanta-te meu guerreiro!"
Por segundos o guerreiro relutou, sentiu a agonia ir embora, mas já era tarde.
Era por volta das oito e meia da noite daquele dia santo.
O guerreiro suspirou profundamente e revelou o que tanto lutou para revelar.
Ele disse:
- "Você chegou tarde, eu não te amo mais!"
Livrou-se das garras da agonia e partiu para o outro plano, onde lá ele poderia ser feliz novamente, e voltar a amar!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Carro de turista suíço invade as areias da praia de Barra Grande na ilha de Itaparica/BA.

Caros amigos, hoje abrirei mão dos contos e poesias que costumo escrever aqui para abrir espaço à uma denúncia.
Sim! Denúncia que será feita por mim, um simples morador do bairro de Barra Grande localizado no município de Vera Cruz na região metropolitana da nossa querida cidade de São Salvador na Bahia.
O que pensa um turista ao sair do seu fabuloso mundo desenvolvido, no caso a Suíça, para vir passear em um paraíso como este em que vivo? Pois sim, é um paraíso. Uma ilha, cercada por praias belíssimas de águas limpas e claras, sem ondas, cercada por recifes de corais, habitat dos mais lindos peixes que possam ser encontrados.
Costuma ser assim, mas há algo que me incomoda. Acredito que não só a mim, como a todos que visitam esse paraíso ainda não entregue às selvas de pedras que são erguidas por aí.
O que me incomoda é o mesmo que acabou incomodando um turista suíço que veio à nossa ilha descansar, tirar as suas merecidas férias.
Primeiro incômodo é, o altíssimo valor cobrado para a travessia de veículos no sistema de ferry-boat com o péssimo serviço oferecido.
Vos falo isso com toda convicção de que não sou o único a reclamar.
Uma travessia precária, com terminais do mais baixo nível para recepção tanto dos turistas, como o Senhor Gregório, como de moradores como eu. 
Como segundo ponto a ser registrado, o descaso com as pessoas que são obrigadas a usar um dos únicos meios de transportes existentes aqui.
Lotações em péssimo estado de conservação que normalmente são encontradas com sua capacidade de passageiros acima do limite e que, por incrível que pareça, tem trânsito livre no posto da polícia rodoviária localizado no mesmo bairro em que vivo.
Outra opção de transporte seriam os táxis oferecidos, mas, em contra-partida, infelizmente, a maior parte da população residente na ilha não tem condições financeiras de se dar a esse privilégio todos os dias da semana.
Ou, por último, aos turistas, restam o aluguel de automóveis, como fez o senhor Gregório, ponto-chave dessa denúncia.
Então vamos ao que realmente nos interessa expor.
Um turista, que está saindo do seu país de origem para conhecer outra cultura, investir dinheiro na nossa economia, chega ao nosso país, procura um local dito paradisíaco e encontra desde a sua chegada até pouco antes do seu momento de estadia, buracos pelo caminho.
As cenas que iram ver agora foram fotos tiradas por mim, no meio da noite de hoje, chamado às pressas por vizinhos. Por sorte ninguém se feriu no acidente, mas a imagem que fica do nosso paraíso, e a imagem que vai para outro país da nossa cultura é essa.

(Carro alugado por turista para visitar a ilha de Itaparica/BA)
Onde deveria haver rua para carros e pedestres passearem e se locomoverem na orla de Barra Grande, podemos infelizmente ver crateras e a falta de vergonha dos senhores de obra do município que dizem não conhecer os problemas existentes na região.
O carro alugado pelo senhor Gregório, ao fazer uma manobra para tentar sair de uma dessas crateras, foi engolido por outra.
Nos perguntamos, o problema é o motorista?
A resposta que lhes dou, como morador da localidade é não!
(Após uma manobra para fugir de uma cratera, a surpresa,
outra cratera)
A culpa é da iluminação precária do local, da falta de estrutura da região e da falta de quem comande o município.
Difícil crer que um prefeito do partido da situação não tenha apoio do governador do estado e que deixe que o município chegue nesse estado.
A realidade é dura não?
Eu vivo aqui, eu sei o que acontece na região, eu sei quem devo criticar e quem não devo.
O povo não tem estrutura para reclamar.
Escutei de um dos próprios moradores da região que quando ele necessitou comprar remédio para um dos seus entes e não teve condições, recorreu ao prefeito da época e foi presenteado com tal medicamento e como agradecimento ele deveria manter o seu voto naquele senhor que o presenteava.
Sei que essa realidade não é apenas do lugar onde vivo, sei que existem muitas outras regiões afetadas pela mesma incompetência e descaso das autoridades, mas acredito também, que se todos lutássemos contra essa pouca vergonha que existe em nossas cidades, se todos nos uníssemos, sairíamos vitoriosos.

(Distância entre areia e residência, onde deveriam passar
automóveis e pedestres, passam pedestres com medo de um
possível acidente e alguns corajosos motoristas que tem
necessidade de passar por ai.)

Falta conscientizar que para termos uma vida digna precisamos ter pessoas dignas no poder e não esses "falastrões" que se encontram num nível hierárquico ilusório de que "manda quem pode, obedece quem tem juízo".

Não terei juízo, não me calarei, sempre que puder levantarei a minha voz para atingir a quem tem de ser atingido.
Sou formado em Hotelaria pelo Centro Universitário da Bahia e me sinto envergonhado ao ver como nossos turistas são recebidos e, pior ainda, como nós somos tratados por nossas autoridades!
Espero sinceramente que consiga provocar, se não o mesmo sentimento de abandono e descaso, ao menos o sentimento de indignação por tamanho abandono.
Obrigado por me lerem! Divulguem!

(Mais uma residência com um pequeno espaço para a chegada
do mar)

(Carro de um turista invade as areias de Barra Grande)
Senhor prefeito e senhor secretário de obras, espero que leiam e se conscientizem de que algo está errado. Por favor, desçam dos seus carros e caminhem por nossa orla, ou melhor, apenas tentem, se tiverem coragem e um pouquinho de dignidade!

Texto e fotos por: Flávio Catão.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Viver.

Eu sabia que estávamos chegando ao fim, que aquele seria o último natal juntos.
A dor era infinita ao amanhecer, podia sentir o nó na garganta a cada respirar e as travas nos olhos para não deixarem rolar as lágrimas.
Foi quando recebi a notícia de que antes de ir à sala receber os convidados, você gostaria de encontrar-se comigo nos seus aposentos. Confesso que fiquei profundamente nervoso, tão mais nervoso do que emocionado, mas fui ao teu encontro.
Teu quarto era um local sagrado para mim. Sempre que havia um aperto no peito, era à ele quem eu recorria, com a sua presença ou não eu sempre iria chorar meus desabafos naquela poltrona a qual você gostava de sentar-se.
Ela ficava frente a uma ampla janela com vista para o quintal, eu nunca havia sentado naquela poltrona, sempre puxava um banquinho que já parecia ter o meu nome gravado, de tanto que o utilizei. Sentava-me nele para que conversássemos, não esqueço, apenas sentava, deitava a minha cabeça no teu colo e escutava as suas histórias.
E naquela manhã me convidara a ir aos seus aposentos repetir pela última vez, talvez, esse gesto. Então apressei-me em ir e ao chegar uma enorme surpresa. Você encontrava-se de pé me oferecendo a poltrona. Obedecendo às suas ordens, sentei-me, você puxou o banquinho e sentou-se ao meu lado. Debruçou-se sobre o meu colo e conversamos, por horas, papéis invertidos.
Ao invés de contar-me o teu passado, eu falava sobre o meu futuro. Ríamos desvairadamente quando contava algo sem nexo que eu gostaria de fazer e que você concordava no ato.
Foram algumas horas de conversar, apenas nós.
Ao perceber que já estava se cansando de ficar sentada, te dei os braços como apoio para levantar-se.
Fui ao encontro dos nossos convidados na sala e aguardava ansiosamente pela sua aparição, pois mesmo nos últimos dias, costumava ser radiante!
Sem esperar, iniciara-se ao fundo uma das canções prediletas por nós, uma daquelas sinfonias de um famoso músico, a nona para ser mais exato. Foi quando surgiu à porta aquele semblante alegre e lindo o qual me acostumara depois de tantos anos.
Levantei-me da minha cadeira e fui ao seu encontro, te recebi com um beijo na testa e te convidei risonho para uma última dança. Claro que mais cautelosamente dessa vez, pois sabia da dificuldade que existia após anos de vida.
Todos pararam de conversar por alguns minutos e nos observaram, éramos cúmplices, amigos e distribuidores de sorrisos e amor um com o outro.
E por aqueles breves minutos tornamos o natal de todos que nos cercavam o melhor natal de todos os anos. 
Hoje, quase um ano depois daquela data, sento-me na mesma poltrona e lembro-me com alegria das suas últimas palavras naquela nossa conversa.
- "Viva, seja feliz! Sorria sempre. Por maiores que possam ser as adversidades que venham a surgir, apenas sorria e dê uma banana à cada uma delas! Você é sorriso, não perca a sua identidade nunca! Eu amo você meu neto querido!"
Foi o que eu resolvi fazer, hoje, quase um ano depois daquele dia, despeço-me da casa, dos amigos que cá estão, os mesmos que estavam naquele dia.
Coloquei a minha melhor vestimenta, liguei a vitrola com aquela mesma canção e preparo-me para sair dos aposentos agora.
Mas não poderia sair sem aqui sentar-me novamente e te contar as últimas novidades.
- "Vó, eu consegui! Estou saindo de cabeça erguida, sorriso na face e muito, muito orgulho de quem me tornei. Distribuo sorrisos, escrevo minhas poesias, assim como você me ensinou. E não mais me preocupo com as adversidades da vida, ontem por exemplo, no fim do expediente, entrei na sala do meu chefe e dei à ele uma banana de presente. Estou indo embora, viajar, fotografar, escrever e acima de tudo, viver! Sorrindo! Eu te amo. Obrigado por tudo o que me ensinou! Como prometi, te enviarei às minhas cartas contando sobre o meu futuro, então, cá está a primeira e adivinha, sabe o que irei fazer amanhã? Viver!"

PAPOS E SUPAPOS

Mi Papos y Su papos!

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