Eu cansei de te dizer quem eu era de verdade. Que aquele "Mr. Perfect" que você imaginava era apenas ilusão da sua mente fértil.
Não tenho um emprego fixo e não quero ter. Aquela história de planejar um futuro, eu sempre te disse que apenas vivo, o que tiver que acontecer irá acontecer da maneira mais natural possível.
E você ainda tentou me moldar. Me fez cortar os meus cabelos rebeldes, aquele mesmo que te conquistou quando começamos a sair. Com o tempo foi tentando mudar a minha forma de me vestir, lembra? Eu era desleixado com as roupas, não ligava em o que as pessoas pensariam ao meu respeito, mas até isso você tentou mudar, mesmo tendo se apaixonado por mim quando eu estava com uma calça de pijama e uma bata indiana no meio da rua cuspindo fogo e brincando com uma bolinha a qual você dizia ser de autista.
E mesmo assim você se apaixonou por mim.
Quem fez você deixar de me amar fui eu mesmo. Cortei os cabelos rebeldes, comecei a usar roupas que combinassem, até a sobrancelha eu fiz para te agradar.
Me endividei para te dar conforto, alugando carros, indo dormir em hotéis, e quando não havia mais dinheiro para tais caprichos me rendia aos seus sorrisos e seus pedidos para que eu não devolvesse o carro e nem fosse para a casa dos meus pais e dormia dentro dele na garagem dos meus amigos.
Acho que tanta dedicação te fez não me valorizar mais.
Ai vieram as suas fugas. Sentada ao meu lado na sala, após me pedir que não fosse embora, vinha com o sorriso mais falso e lindo que conheci e me informava que iria sair com as suas irmãs para uma daquelas baladas onde todos estão entregues ao levianismo.
É. Eu tenho certeza que a culpa foi minha do fim do namoro. Nossa relação não mais iria para frente, eu perdi as rédeas quando abandonei a minha paixão, a minha alma de artista. Entreguei as moscas o meu sonho de fazer o grupo de artes de circo crescer, mesmo grupo o qual você fazia parte e se dizia eternamente parte integrante dele. Fui viver em um mundo ilusório onde trabalho e dedicação é o caminho certo para ter tudo o que quiser.
Doce ilusão!
Mas não, não me arrependo de nada do que eu fiz. Nenhuma das loucuras para manter a nossa relação viva e saudável. Nenhuma das besteiras para tentar me adequar ao seu estereótipo perfeito de companheiro. E nem uma das muitas voltas que tive que dar em minha cabeça para agradar a toda sua família em busca de aprovação.
O que me sobrou no fim?
Só me resta me apresentar a ti para tentar te fazer lembrar quem sou eu de verdade. Aquele cara "perfeito" por quem você se apaixonou!
Prazer, eu sou um cara cheio de defeitos.
***Texto participante da 63ª Edição Musical do projeto Bloínquês.